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   Quinta-feira, Novembro 09, 2006
Debandada pro Blogspot.

   Sexta-feira, Outubro 06, 2006
O Diabo Veste Prada acerta em não querer fazer rir a qualquer custo e a todo momento, mas está longe de evitar convenções narrativas. A protagonista (vivida por uma atriz que é a cara de Monika Lewinski e cujo nome ignoro) a princípio não quer passar por cima dos princípios para se manter no emprego, mas paulatinamente vai sendo seduzida pelas tentações do capitalismo, quando enfim percebe que existem coisas mais importantes do que um cargo "que milhões dariam a vida pra ter".

A nova situação muda o estilo de vida de Monica Lewinski, e isso, claro, gera uma crise na sua vida amorosa. O namoro termina, outro homem surge, mas, no final, ela volta para o antigo namorado. A lição de moral extrapola o senso do ridículo quando a nossa heroína sofre quando fica sabendo que irá viajar a trabalho para Paris, no lugar de um desafeto. Pode ser humanista, mas não é humano.

Mas o filme tem um bom ritmo, um humor inteligente (ao contrário do enredo) e uma Meryl Streep charmosa como nunca.

   Sábado, Setembro 02, 2006
A eles toda honra e toda glória

No intervalo de alguns dias o cinema me deu a oportunidade de conhecer melhor dois brasileiros que tinham muito em comum: Dom Helder Câmara e Glauber Rocha. Ambos eram nordestinos, alcançaram notoriedade e antipatia por pensarem diferente, foram bem acolhidos na Europa e nem sempre em seu próprio país etc.
O cearense Dom Helder era um progressista numa instituição que foge das mudanças como o diabo da cruz. Fundou a CNBB e achava que a igreja devia se voltar mais para questões sociais, como a redução da desigualdade. No bipolarismo da Guerra Fria, acusavam-no de comunista, claro, ao que ele respondia: "Ser comunista é dizer que a religião é o ópio da sociedade. E eu acho justamente o contrário." Dono de oratória e carisma impressionantes, era convidado com frequência para eventos no exterior e foi fundamental para o surgimento de setores progressistas na igreja católica na América Latina, África e Ásia.
O documentário "Dom Helder, o Santo Guerreiro", da brasiliense Erika Bauer, deixa claro que essa figura idealista e que se fazia ouvir oferecia perigo tanto para o Vaticano como para o Regime Militar. E ambos não deixaram barato. Quando Dom Helder era favorito absoluto para o Nobel da Paz, os milicos fizeram tanta zuada que não houve um laureado na categoria nesse ano. Num depoimento alguém diz que o Papa João Paulo II praticamente proibiu Dom Helder de sair do país, o que o teria deixado muito triste. Os esforços da Ditadura e do Vaticano pra cortar as asas e amansar a língua de Dom Helder ajudam a explicar por que pouco ou nada sabemos sobre sua trajetória.
Dom Heler morreu em 1999, em Recife, aos 90 anos.

Agosto marcou os 25 anos da morte de Glauber Rocha e para não deixar a data passar em branco houve exibições de curtas e longas de/sobre ele no Decom e no cineclube da ABD. Terra em Transe e o Dragão da Maldade já conhecia; agora pude ver Deus e o Diabo na Terra do Sol e os curtas O Pátio, Di e Maranhão 66; além dos documentários sobre o cineasta baiano A degola fatal e Glauber: Labirinto do Brasil.
Provavelmente não falarei de todos, mas dos que mais me impressionaram. Di, o famoso curta sobre o velório de Di Cavalcanti, é merecedor da mitologia que o cerca. Destaque para a montagem, especialmente a narração, do próprio Glauber. Ora ele recita um poema, ora dá um testemunho pessoal e daqui a pouco se remete ao velório como um jogo de futebol... Algumas vezes tem-se a impressão de que ele está falando a esmo, numa parodização, caos, carnavalização, experimentação, citação etc. tão ao gosto do modernismo. O documentáio traz uma abordagem absolumente original, ressuscitada, em 2004 (embora com mais recato) no curta A degola fatal. Só que o velório aqui é o do próprio Glauber. O documentário é uma montagem dos (incrivelmente numeroros) registros em Super-8 do enterro do cineasta.
Maranhão 66 cobre a posse do governador do Maranhão José Sarney. Inquieto, Glauber contrasta o discurso populista de Sarney com imagens de absoluta miséria vivida pela população. Coisa batida hoje em dia, mas tente se colocar quarenta anos atrás e estamos conversados. Mais do que isso o que me chamou a atenção no curta foi a profunda semelhança entre Sarney e o caudilho vivido por José Lewgoy em Terra em Transe.
"Labirinto do Brasil" é um documentário de linguagem clássica, mesclando entrevistas com imagens de arquivo. Não seria um filme digno de nota se não fosse... sobre Glauber Rocha. Na minha modesta opinião a palavra de Glauber é tão ou mais interessante que seu cinema. Há boas histórias contadas pelos entrevistados, mas é quando o próprio homenageado fala que o filme de Silvio Tendler Brilha. É ótimo ouvi-lo dizer que "cinema é som e imagem, contar história é pro teatro." Tão acusado de incoerência, é difícil alegar que seu discurso - ou sua vida - não é coerente com sua obra.
Rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, vindo do interior mas nem um pouco inocente, puro e besta, Glauber fez seu primeiro filme antes dos 20, realizou uma obra-prima aos 24, só Cannes ganhou três vezes, é o único brasileiro tema de uma edição especial da Cahiers du Cinema e foi considerado, durante algum tempo, o cineasta mais conhecido fora de Hollywood - ao lado de Godard.
Goste-se ou não de seus filmes é difícil não reconhecer sua genialidade. E ele não tinha nenhum constrangimento em se auto-elogiar. Há no documentário de Tendler uma passagem sintomática sobre o burburinho no Festival de Veneza em que ele concorreu com A Idade da Terra. O longa era a atração maior do festival. E apesar de Louis Malle ter levado o Leão de Ouro, Glauber foi - para o bem e (principalmente) para o mal - o nome mais badalado em Veneza. Fracasso de público e crítica, ele era irredutível na defesa de seu último longa: "Eu faço o cinema do futuro! As multinacionais e a CIA compraram o festival! É um absurdo que no país de Rosselini e Visconti Louis Malle seja premiado!" Quando Glauber falava o mundo ouvia. E sua voz ainda ecoa.

   Terça-feira, Julho 25, 2006
Os sonhadores, de Bertolucci, mostra um trio de personagens que levam ao extremo a paixão pelo cinema no auge do cineclubismo, da nouvelle vague e da politização. Três jovens de 20 anos que não vêem TV mas mandam cinema pra veia 24 horas por dia. Não vou entrar na discussão sobre o maio de 68. A mim parece mais interessante refletir sobre a cinefilia, sobre o que pode dizer aos fãs de cinema atuais a dedicação religiosa dos cineclubistas dos anos 60.
Camaradas, estamos falando de um mundo sem internet, DVD, vídeo e com uma TV apenas incipiente. Filmes, só nos cinemas. E como uma geração chapada com os cineastas de vanguada e cahiers du cinema da vida, uma juventude que queria mudar e mundo e não ver só filmes hollywoodianos, fazia para ter acesso a Godard, Fellini, Bergman ou Kurosawa? Nos cineclubes. Essas iniciativas, populares em todo canto durante os anos 60 e 70, mesmo em João Pessoa, mesmo em Campina Grande, são um dos capítulos mais interessantes e românticos da História do Cinema. Contrabandear, transportar, emprestar cópias através de uma rede clandestina de cooperação; exibições escondidas, debates apaixonados... Já pararam pra pensar na influência da cultura cineclubística na arte contemporânea? Olhe ao seu redor e veja quanta gente boa que aí está fez a cabeça nos cineclubes.
Tanta dificuldade para se ver um filme cria uma relação especial com a obra. A ânsia, a expectativa, o privilégio de poder assistir o cineasta que tanto se leu a respeito; a chance única (se deixar a oportunidade passar, talvez não haja a "próxima sessão"); a sensação de fazer parte de um momento em certa medida trangressor, revolucionário; as já citadas discussões, que podiam levar a amizades enriquecedoras. Eu insisto: quantos críticos, escritores, cineastas ou simplesmente cidadãos melhores não nasceram nos cineclubes?
Não precisa ser com tamanho afinco como os personagens de Os sonhadores, mas aquele microcosmo da cinemateca francesa que vemos no filme dá uma bela idéia da relação peculiar que o cineclubismo provoca entre espectador e obra. Hoje o que se vê é um negócio curioso. Por um lado, damos graças aos céus por poder ver qualquer filme, na hora que quisermos, mas essa mesma facilidade tende a menosprezar nossa relação com a sétima arte. As salas de cinema foram ao shopping. Assiste-se aos DVDs que a revista indica ou que o vendedor disse que é bom. Esperamos passar na TV a cabo ou na Globo. Enfim, só pra levantar a discussão que ver trocentos filmes, sem parar pra mastigar, sem discutir no bar depois, sem catucar no IMDB, não vale muita coisa. Deve ter sido bom aquele maio de 68...

   Terça-feira, Julho 18, 2006
Após longo e tenebroso inverno estou de volta à labuta. Fora o intervalo autoconcedido para comentar a Copa, nos últimos meses tudo que escrevi foram fichamentos, resenhas, scripts, projetos e outras coisas legais. E se me faltou tempo para blogar, imagine para ir ao cinema. O últime filme que vi na telona foi A máquina, não por acaso, também, tema do post mais recente...
Enfim, as férias. Daqui pra frente tudo vai ser diferente. Que atrás vem gente.

Sem mais delongas. Os filmes do Cadernos de Cinema do fim de semana são o tema das ponderações que ora vos apresento.


Tudo bem que a cara de mau é tão indispensável a um rapper quanto as roupas folgadas e o bonezinho de lado. Mas às vezes os caras exageram. O caso é o seguinte. Sábado a TVE exibiu Fala Tu, documentário do estreante Guilherme Coelho que explora a vida de três rappers cariocas que não caíram nas graças da mídia e precisam ralar pra sobreviver.
Vi o filme numa sessão do projeto "Br em Movimento", na universidade. Quando sintonizei o Cadernos de Cinema, o filme tinha acabado de terminar e resolvi acompanhar o debate. Foram convidados pra discussão um dos protagonistas, o Macarrão, e uma figura secundária no filme (tão secundária que eu nem lembrava dele), um certo D.J. A. Pois bem, como bons representantes do "verdadeiro" Hip Hop, os dois falavam com desconfiança de tudo e com todos, com a cara amarrada de praxe. Fizeram questão de deixar claro que a edição explorava as desgraças deles, que não gostam de como o filme os pinta e Macarrão, em especial, sugere em vários momentos que os produtores o teriam enganado. Mas tanto quando você o filme, como quando acompanha as opiniões dos críticos que participaram do debate, percebe-se que tudo não passa de paranóia, mania de perseguição, pose de coitadinho.
Macarrão disse que relutou em aceitar participar do documentário e que só sucumbiu porque amigos seus o convencerem. Também falou com todas as letras que o diretor era 'preconceituoso pra caralho" e etc. Mas quando o próprio rapper não se contradiz, os fatos o fazem.
Os personagens retratados provavelmente receberam cachê, além disso, ganharam com as vendas dos CDs da trilha sonora do filme. As vantagens não param por aí. O próprio Macarrão reconhece que só gravou o próprio CD e conheceu seus ídolos (naturalmente, os também rappers "de verdade" Mano Brown e MV Bill) por causa do sucesso do filme. E admitiu, inclusive, que agora não mora mais no subúerbio do Estácio, onde vivia na época das gravações.
Se já me incomodam as letras de Rap que sempre "denunciam" as mesmas coisas, imagine ver um cara que não sai do personagem do rapper contestador em nenhum momento. "Teve que aparecer um rapper branco pro Rap aparecer na mídia." A velha conversa do perseguido. O alvo é Gabriel, o pensador, sempre atacado por não ser negro, não morar em Heliópolis ou na Cidade de Deus, e entender que a música, assim como a vida, também pode ser uma diversão. Isso também não é preconceito?

P.S. MV Bill, o ídolo do Macarrão, vive falando mal de "Cidade de Deus", alegando que o filme ajudou a estigmatizar a população do lugar. As críticas de Bill ajudaram a fazê-lo famoso e lançar livro, documentário no Fantástico...

P.S. 2. E uma observação inútil. Guilherme Coelho, diretor de Fala Tu, é sobrinho de Arnaldo Cézar Coelho, o da regra é clara, Galvão.


Já ontem, domingo, foi exibido São Jerônimo, de Júlio Bressane. Meu interesse vem do fato de o personagem do título ser vivido por Everaldo Pontes e da minha curiosidade pela obra peculiar de Bressane. Nos filmes dele não há diálogos, há recitais. "¿A falta do homem é falta pouca. Deus acudirá e tudo ficará bem." "Olhar sem atenção é olhar e não olhar." Bressane também gosta de enquadramentos e angulações pouco convencionais entre outras viagens. Sim, é chato. Mas é bom ver uma coisa assim de vez em quando. E, dependendo do seu humor ou sensibilidade, dá pra dar umas risadas em algumas passagens. Por exemplo, São Jerônimo viveu no século IV, mas na sequência final do filme ouve-se (pasmem) um forró. "Eu só deixo o meu Cariri..."
Uma figura esse Bressane.

O filme reprisa sábado que vem, a 1h30.

   Sexta-feira, Maio 12, 2006
Guel Arraes achou alguém pra radicalizar na metalinguagem que ele praticara nos seus filmes. A Máquina, de João Falcão, esse afilhado de Arraes, é isso: uma radicalização de Lisbela e o Prisioneiro.
A escolha pela comparação com Lisbela não é à toa. É o longa de Arraes (produtor associado do filme de Falcão) que mais se parece com a Máquina ¿ a história de amor, os tipos quase idênticos, a localização, o sotaque, a trilha sonora, (e como ela é aproveitada no filme), os tons berrantes da fotografia e da cenografia...
Vamos contextualiazar um pouco. Falcão foi tirado do teatro pernambucano por Arraes, que o levou pela mão pra Rede Globo, onde veio a dirigir séries como Sexo Frágil. É casado com a escritora e roteirista Adriana Falcão, autora do romance A Máquina, que deu origem a peça, que foi adaptada pro cinema pelo casal e atuada pelo mesmo elenco da montagem teatral... Um negócio familiar até a medula.
Além da inegável influência de Arraes, Falcão optou por filmar em uma cidade nordestina construída em estúdio. Claro que o fato de a histõria ter sido anteriormente levada para o palco deve ter contribuído pra isso também. Não é viagem tampouco dizer que há algo de Hoje é Dia de Maria naquela concepção. Mas o filme sabe que é fake e tenta tirar proveito disso. E eu seria injusto se dissesse que não funciona. Funciona. A mistura de tradição popular nordestina com elementos fantásticos, costurados pela narração de Paulo Autran também me convenceu.
E o elenco? Bem, Vladimir Brichta e Lázaro Ramos são Vladimir Brichta e Lázaro Ramos. Agora a atuação desse Gustavo Falcão (haja Falcão!) é constrangedora. Horrível é elogio. Ele não consegue manter o mesmo tom na interpretação nem durante uma mesma sequência. Ora o seu Antônio parece um plágio do Chicó de Matheus Nachtergaele, ora ele parece estar sendo ele mesmo... Caralho, o camarada é r-u-i-m com força.
Já as críticas que ouvi pra Mariana Ximenes agora me parecem exageradas. A moça, se não é um fenômeno, também não e ruim. E me parece ter muito mais vocação pra namoradinha do Brasil, por exemplo, do que Débora Falabella (aqui tomando Lisbela como exemplo). Musa de novela, cinema independente (O Invasor) e agora também de uma produção da Globo Filmes. Versátil a menina. E eu nem falei dos peitos...

   Quinta-feira, Abril 13, 2006
Not another teen movie

A caricatura, em alguns casos, é antes um recurso a favor do filme do que um problema. É o que eu percebo em 'Te pego lá fora'. O filme é vendido como comédia colegial (e funciona como tal - não é à toa que passa todo mês na Sessão da Tarde), mas vai além do rótulo e da diversão gratuita.
Eu vejo ali um rito de passagem. O protagonista arranja uma encrenca com o valentão da escola e é jurado de levar uma surra. Ele passa então a usar de vários artifícios pra tentar evitar a briga - inclusive alguns escusos, como assaltar a lojinha da escola. No caminho, ele vai adquirindo autoconfiança e, no final, quando finalmente encara o desafio proposto (como um homem deve proceder!), ele não só vence o seu algoz como se vê com três mulheres a seus pés: uma amiga, uma patricinha que ele nem conhecia e até a professora. É ou não é a história de um garoto que se transforma em homem? E tudo em apenas um dia.
A direção é segura e sensível. Tudo é encenado como um balé, cada enquadramento é planejado e cada personagem ou acontecimento é caricato, grotesco ou patético. Como tinha que ser. Não tô brincando, 'Te pego lá fora' é um filme notável.

   Segunda-feira, Abril 10, 2006
Luiz Fernando Carvalho, Soia Lira, Servílio Holanda*, José Dumont, Ravi Lacerda, Everaldo Pontes. Toda essa pequena grande seleção paraibana dá as caras em Abril Despedaçado. Está lá quase todo o elenco de Vau da Sarapalha (à exceção de Nanego Lira) mais seu diretor. Interessante, não? Quem lembra disso? Eu pelo menos não lembrava, até rever o filme recentemente. Eu também não lembrava de outras participações ilustres, como as de Othon Bastos, Wagner Moura, Gero Camilo e Vinícius de Oliveira (o boy de Central do Brasil). E não era só dessas pontas que eu não lembrava, eu esqueci até que Pacu morria. Vejam só.
Praticamente só me recordava das belíssimas cenas de circo e das tomadas no balanço, captadas por Walter Carvalho, o diretor de fotografia mais autoral que conheço, e da delirante sequência em que Tonho (Rodrigo Santoro) persegue seu inimigo jurado de morte.
O principal motivo pra essa amnésia é que eu não gostei do filme quando o vi pela primeira vez. O invencível Central do Brasil me fez ter muita expectativa em relação a qualquer coisa que Walter Salles faça. Fui muito exigente com Abril Despedaçado e, agora posso dizer, injusto também.
Com o tempo foi amadurecendo a idéia de que eu mudaria meu conceito quando revisse a obra. Não deu outra. E fiquei mais encantado do que imaginava. Poético de doer, agora pude perceber a beleza dos personagens de Santoro e Ravi Lacerda - os irmãos Breves. Cada um com seu drama, cada um com seus sonhos.
Tecnicamente o longa é quase impecável. Figurino, direção de arte... Apenas a iluminação de algumas cenas me soou meio fake. E Abril Despedaçado tem um dos cortes mais bem-sucedidos de que me recordo. Pacu está "lendo" o livro que ganhara de Clara em voz alta, viajando na história que criou baseado nas ilustrações do volume. O pai fica irritado ao escutar aquilo e toma o livro do menino, que fica desesperado (e a gente com o coração na mão). Corte seco para um bando de moleques espancando um boneco de pano. Puro Eisensitein.
Os diálogos são ao mesmo tempo ricos e verossímeis, fugindo do lugar-comum. Olha o time que comanda o roteiro: Walter Salles, Karim Ainouz e Sérgio Machado (esses dois últimos diretores-roteiristas de Madame Satã e Cidade Baixa, respectivamente; Machado também é o diretor-assistente), e diálogos adicionais de João Moreira Salles e Daniela Thomas. Roteiro, como todo mundo sabe, baseado num romance do albanês Ismail Kadaré. Fraco, hein?
Mas infelizmente Walter Salles perde a mão no desfecho da história. O maior problema do filme é o final. Ou pra ser mais exato: o final do final. Personagens que largam tudo pra sair andando a esmo e acabam dando no mar é, pra dizer o mínimo, uma das metáforas mais convencionais que existem. E, nesse caso, ainda soa um tanto deslocada e nonsense.

* Muita gente não sabe ou não lembra, mas Servílio faz uma pequena participação em outro longa de Salles, O Primeiro Dia, repetindo exatamente o personagem que faz em Vau da Sarapalha, ou seja, o vira-lata (flerte com o Surrealismo?).

   Sexta-feira, Abril 07, 2006
Cinema paraibano 1 x 0 Literatura sergipana
O Meio do Mundo, de Antônio Carlos Viana, é narrado em primeira pessoa e quase não tem discurso direto em suas quatro páginas. O Meio do Mundo, de Marcus Vilar, tem apenas dois diálogos curtíssimos ao longo de seus onze minutos de duração. A discussão é antiga: o cinema melhora ou piora as criações literárias que adapta?
No caso do conto de Viana, o protagonista rememora a sua primeira experiência sexual e dá indícios do que mudou na sua vida desde então. Marcus Vilar, radicalizando no silêncio ao levar o texto pra tela, consegue ampliar o leque de sugestões presentes no conto. A obra do escritor sergipano não tem bolha de sabão - o brinquedo do menino que está prestes a perder a inocência; não tem a fixação do pai por cheiro de queimado, não tem o olhar resignado da mãe, enciumada mas impotente; não tem a metáfora perfeita da travessia do túnel.
Há no conto, porém, pelo menos uma informação importante que o filme ignora: o pai pede dinheiro à mãe pra pagar à prostituta. Mas o principal trunfo do conto em relação à adaptação é um dado que ele não revela: a incerteza sobre a mudez da prostituta. No filme, não há dúvidas: ela é muda. Detalhes que fazem diferença, principalmente em narrativas curtas, onde o espectador/leitor é menos distraído e mais exigente. Nisto, a personagem do filme perde em interesse em relação à do conto.
Mas, como disse, o curta de Marcus me diz muito mais coisas do que o texto. Portanto, na minha opinião, trata-se de um caso em que o cinema superou a literatura - e rendeu ao diretor paraibano o melhor filme de sua carreira.


Por falar em transposição literatura-cinema, eu nunca vi a adaptação de Um Copo de Cólera (que dizem que é fraca), mas a impressão que tive ao ler a novela de Raduan Nassan é que ali tem um embrião de um puta roteiro. Acho até que daria um filme melhor que o livro, em mãos competentes, é claro. A história, particularmente aquela enorme discussão cabeça que rola entre o casal, me lembrou Acossado, de Godard/Truffaut. Só que bem mais apimentado. Algo mais ao gosto de um brasileiríssimo Nelson Rodrigues...

   Sábado, Abril 01, 2006
Acompanhei alguns fóruns on-line (ou, como diz um professor meu, "em linha") sobre Flores Partidas e vi que, mesmo entre pessoas acostumados a um cinema mais alternativo, foram são comentários do tipo "é bom mas é chato". Ou ainda: "lento", "boring" e afins. Na página do filme no IMDb chegaram ao linchamento: "The worst movie ever!".
Eu entendo quem recebeu o filme dessa forma. O diretor Jim Jarmusch se recusa a lançar mão de apelos artificiais, seja narrativos ou estéticos. É isso: ele não apela, definitivamente. Não força a barra para fazer o espectador rir ou chorar. Negando o recurso à emoção fácil, ele engrossa o coro dos cineastas e críticos que pregam que o cinema deve fazer o público pensar e sair do cinema com a cabeça cheia de dúvidas - e não enxugando lágrimas de choro ou de riso.
Flores partidas é mesmo estranho. Jarmusch parece ter bolado de propósito um protagonista que não merece ser levado a sério. Como exemplo basta citar as insistentes referências a Don Juan (a começar pelo nome do sujeito: Don Johnston) e o fato de toda vez que ele liga a TV o programa parece estar falando dele, nada sutilmente. Quando, na sua procura pelo suposto filho, conhece a filha ninfeta de uma ex-namorada, que age e se veste como uma Lolita, descobre que esta se chama (um doce pra quem adivinhar) Lolita! E tem mais. O herói pega vários aviões, dirige carros alugados mas temos a impressão de que, geograficamente falando, ele não sai do lugar. As paisagens parecem sempre as mesmas. Isso foi até tema de tópico lá no IMDb. Alguém afirmou que o tempo todo Don não sai de New Jersey e arredores, e ainda se pergunta: "Por que raios uma pessoa iria de avião de New Jersey para Upstate New York??" É, não é só o personagem que merece crédito, mas todo o filme. E, insisto, isso é intencional. Provavelmente uma crítica bem sacada ao cinema-espetáculo e suas histórias açucaradas e de fácil digestão.
Mas se você ainda assim se identificar com as desventuras que o personagem passa a viver tão logo recebe a fatídica carta, não espere ter respostas para nenhuma pergunta que surge com o desenrolar da trama. Quem mandou a carta? O filho existe de fato? Ele o encontrará? Por que a ex-namorada que ele encontra no trailer lhe tem tanto ódio? E, o que pelo menos pra mim é o maior mistério do filme, por que Don Johnston (vivido com propriedade por Bill Murray) se tornou tão apático, sem motivação nem mesmo para seduzir uma mulher que parece lhe dar bola, quando no passado foi um Don Juan? Por que motivo, realmente, ele decidiu fazer a viagem?
Transpondo-se a barreira do distanciamento com o qual a história é contada, dá pra ficar viajando no protagonista. E isso dá margem a várias teorias, como uma que li, ainda no IMDb, que defendia que foi o próprio Don Johnston quem escreve a carta...
Se querem saber o que eu penso sobre filmes como este, secos, abertos, não tenho nada contra. Eu acho têm seu valor, provocam, interessam, sem falar que a tal da monotonia em cinema é um troço demasiado relativo. Mas também não acho que a emoção deve ser banida da sétima arte. Só não pode descambar pro ridículo, pro sentimentalóide (no caso de dramas ou romances) ou pra caretas e escatologia barata (no caso das comédias). Seja como for, o fato é que esse nicho ao qual Flores partidas se filia costuma ganhar a admiração (sincera ou não) de um número significativo de críticos ou de meros cinéfilos. Diga-se de passagem, o longa arrebatou o Grande Prêmio do Júri em Cannes, além de vários prêmios em outros festivais metidos a besta menos cotados.

Próximos capítulos: O meio do mundo e Abril despedaçado